07/05/2010

Bem Próximo


Breve como o pôr do sol
Demorado como o crescer do cedro
Perto como os dedos de uma mesma mão
Longe como as estrelas
Duradouro tal qual metal
Tenro qual planta nova
Resistente feito diamante

Perplexo,
como eu
Com meu sorriso que sucumbe ante a face da morte
Com meu corpo famélico a esperar
Tão perto de tudo que preciso
Tão distante de conseguir alcançar
Vou passando feito desejo
Vou ficando feito saudade
Meu coração tão frágil a bater
Minha ferida que protesta em sarar

Complexo,
como você
Quando aparece e tão logo se vai
Quando promete voltar e não vem
E deixa aqui sua alma
E para outro lugar segue caminho
Sozinho, sorrindo vai sonhando
Se pondo a construir ao caminhar
Doente de medo se escondendo
Déspota com quantos contigo não concordar

Diverso,
como o mundo
Breve e Demorado
Controverso como nós
Perto e Longe
Inverso como as faces da moeda
Efêmero e Duradouro
Paradoxal qual relógio
Tenro e resistente
Os sentimentos que habitam em mim
Os meus sonhos
Eu

Kelly Abrantes


Areias Movediças


Areias movediças, armadilha perigosa no meu caminho
Feito teu olhar
Que me olha sorrateiramente e em silêncio
Na intenção de me aprisionar
Eu que nunca tive medo
Não interrompo os meus passos
Pois não sou presa tão fácil de se capturar

Eu passo pelas areias movediças
Mas desvio de ti o meu olhar
E lhe peço que desvies os teus olhos dos meus
Porque eles me perturbam
Porque teus olhos são areias movediças
Contra as quais não posso prevalecer
Ai de mim, se eu caio nelas
Não tenho forças para resistir você

Areias movediças que se movem e me movem para ti
É teu olhar tão perspicaz lançado sobre mim
Areias movediças que se movem e me comovem
Me fazendo relembrar
Que sou feito uma criança
Que eu não conheço a vida
Que eu não sei o que é amar
Areias movediças que me prendem dentro do teu olhar
No qual eu vejo tudo o que eu não sei
E você quer me ensinar

Eu me rendo, você venceu
Nas areias movediças do teu olhar você me prendeu
Agora eu amarro o meu mundo ao teu
Então vamos, deixa-me ver como tu vês
Me empresta o teu olhar
Me deixe andar com os teus passos
Me ajude a caminhar
Me empresta o teu sorriso
E a tua voz para eu cantar
Me pegue pelas mãos e me ensine a viver
Me conduza pelas sendas do amor
À um lugar chamado você

Kelly Abrantes


De Volta à Vida

.
Mergulhar profundo nas lágrimas dos teus olhos
E lá no fundo resgatar
O sentido da vida
A alegria e os sonhos
Que um dia vistes naufragar
Nas lágrimas turvas que marejam teu olhar
Vou navegar
E com o calor da minha mão
Aquecida por meu coração
Fazê-las evaporar
Ou enxugá-las todas até a última gota
Colocar um sorriso na tua face pálida
E vê-la brilhar
Sob as chamas incandescentes dos meus olhos
Que acendi para lhe iluminar
E aquecer teu corpo frio
Clarear a tua estrada
Lhe ofertando um novo olhar

Segurar firme nas tuas mãos trêmulas
Teus passos trôpegos firmar
Isto e muito mais farei
No simples instante
Em que a tua mão eu tocar
Sussurrarei nos teus ouvidos uma prece de amor
Com a magia da minha voz lhe transportarei ao paraíso
Lhe fazendo esquecer toda dor
Te atrairei à mais alta montanha
Ao topo mais alto com o som da canção
Que tocarei com o palpitar do meu coração
E lá em cima lhe entregar
Tudo o que um dia a tua vontade desejou
E a realidade não deixou
Se concretizar
Ouça agora a voz doce dos teus desejos a lhe saudar

Beijar as palmas das tuas mãos
E sem palavra alguma dizer
Que jamais terás de se preocupar com as noites longas
Pois sempre estarei ao teu lado e lhe prometo
Para cada noite escura um novo amanhecer
Com borboletas coloridas
Com pássaros e cantigas
Com o perfume das flores
Que eu plantei para você

Kelly Abrantes


Quando Eu Não Sabia Amar

.
Na época você me deu um livro de presente
Encantei-me da capa dele
Fiquei por demais contente
Com minha fala dissimulada
Eu disse que entendi
Tudo o que li
Do começo ao fim
Você sorriu para mim
E disse que comigo queria viver
Mas verdade é que naquele tempo
Eu nem sabia ler
Aquele dia eu te convenci
Com um discurso pronto
Não feito por mim
E agora que sei ler
Percebo o quanto perdi
Por fingir
Com astúcia mentir
Tão bem ao ponto de creres em mim
Mas se eu tivesse lido a história
Eu saberia como agir
Quando triste você resolveu ir embora
Daqui

Na época você fez para mim uma canção
Eu a recebi com emoção
Até aprendi a cantá-la
Em vários tons e escalas
E a tocava dedilhada ao som da lira
Que te fazia delirar
De paixão
Só por me ouvir cantar
A canção que falava justamente de ti e de mim
E que só agora ao ouvi-la ao som de outra voz
Eu percebi
Que toda aquela felicidade que eu cantava
Era para nós
E eu nem vi
Não prestei atenção
Em todos os sonhos de amor
Do teu coração
Preocupei-me apenas com a apresentação
Uma bela estética para causar boa impressão
Holofotes sobre mim no palco da ilusão
Nosso amor apagado
Por eu não entender a canção

Na época você quis andar de mãos dadas
Te estendi minha mão e caminhamos
De mãos dadas passeamos
Enquanto andávamos eu olhava para o outro lado
Minha mão junto a sua
Mas meu coração além do lago
Que eu sonhava atravessar
Nem que fosse a nado
Só porque eu pensei que suas mãos
Eram algemas querendo me prender
Quando na verdade era o amor
Me convidando a viver
Eu não soube entender
Que a única pessoa capaz de me tirar da solidão
Era você

Na época você era a pessoa certa
E eu a pessoa errada
Tive tudo em minhas mãos
Agora não tenho nada
Eu era qual andarilho
Sem rumo ou lugar
Uma alma miserável
Que não soube te amar

Kelly Abrantes


Filha da Noite

.
Filha da noite
Tua pele é nédia

Sob o brilho das estrelas
Refletes o luar
Também tens luz própria
Nas trevas podes tu brilhar
Teu jeito doce e sombrio
Teu mundo particular

Filha da noite
Teus olhos negros
Tão cheios de si
Me fazem pensar se em ti
Ainda há lugar para mim
No teu coração sorrateiro
No teu corpo traiçoeiro
Com cheiro de jasmim

Filha da noite
Me prenda em teus braços
Em uma outra realidade
Me faça viver
Entre tuas correntes e anéis

Entre o guizo das cascavéis
Que tu crias só para ter
Um lugar seguro na noite
Para celebrar a liberdade
Antes do amanhecer

Ah, as trevas vão indo
A Alva está vindo
O sol quer nascer
Daqui à outra noite
Faltam tantas horas
Para meus olhos outra vez
Poderem te ver
E eu nem perguntei o teu nome
Que contém o meu nome
Como pude esquecer?

Quisera eu que o solstício de inverno
Durasse todas as noites
Das minhas estações
Para ver-te por mais tempo
Para que tu me alimentasses
Com tuas porções
Com o veneno dos teus escorpiões
E embriagado pela peçonha deles
Me deixasses conhecer
Cada um dos teus muitos corações


Kelly Abrantes


Ilusão


Meus ouvidos ouviram tua voz a me chamar

Meus passos te seguiram à um lugar
Que eu nunca havia estado antes
Eu fui sem pensar
Me lancei por inteiro
E me perdi por lá
É diferente de tudo que se possa imaginar
É impossível descrever
Não há palavras pra dizer
Não sei onde eu estive
Mas vi as portas do paraíso
E no teu sorriso
Bebi a felicidade de uma vida inteira

Eu estive a beira de acreditar
Que a sorte sorria pra mim
E eu poderia descansar
Era bom demais para ser verdade
Meu coração desconfiou
Eu tentei voltar atrás
Mas teu olhar me procurou
Eu até tentei fugir
Mas você me encontrou
Com a magia dos teus olhos
Você me transportou
A um outro lugar que eu já nem sei mais
Quem sou

Não há sorte tão duradoura
Há que se tomar cuidado
É perigoso sonhar acordado
Pois se corre o risco de dormir
E ao despertar
Não ter mais motivos para sorrir

Eu dormi na embarcação furada da ilusão
Nem percebi
Foi pura distração
E acordei na terra da desilusão
É o passado perdido
Que partiu meu coração
São os poemas guardados
Debaixo do colchão
É a saudade da promessa
De dias tão risonhos
Mas você partiu
E eu só te vejo nos meus sonhos

Kelly Abrantes


Estações do Ser


Os raios de sol entram pelo meu quarto
E beijam minha face
Eu desperto
Ao som dos pássaros que cantam nossa canção de amor
As flores me saúdam com o fragor
Do teu perfume
Eu olho da janela
É primavera
No meu coração

Eu te aguardo no porto
Você virá na embarcação que traz especiarias, iguarias
Mas nenhuma se iguala a você
Eu te espero na tarde quente
E a estação quer que corar
Mas apenas no calor do teu abraço poderei me bronzear
Você chega e meu coração ferve
É verão
Na minha pele

O dia amanheceu silencioso
Tudo parece estar em repouso
Coberto por um manto cinza
O calor é tocado para longe
Pelo vento que traz uma tempestade
De folhas que inundam o meu chão
No qual eu vejo o teu rastro
E sinto a solidão
Você partiu em silêncio
Eu me ponho a chorar
E nas tardes de cor âmbar eu sinto o abandono
É outono
No meu olhar

Minhas mãos tão frias distantes de ti
Lá fora um horizonte gélido
Feito meu coração, feito o vento que corta minha pele
Feito a solidão que não quer passar
Eu pego uma taça e a encho de saudade
Que gosto acre ao meu paladar
A neve cai na relva, mas é a mim que ela congela
Eu já não quero chorar, nem sorrir, nem fingir
Eu já não quero lembrar mais de ti, nem de mim
Eu só quero esquecer, eu perco a calma
Mas deixo tudo anotado em um caderno
É inverno
Na minha alma


Kelly Abrantes


À Sua Espera


Você diz que eu sou rude, reclama da minha frieza
Mas se prestasse atenção, teria uma surpresa

Debaixo dos tapetes não há só poeira

Há também lembretes e bilhetes
No fundo das gavetas não há só traças
Há também cartas
Que eu deixei pra você

Ah se você soubesse quantos poemas estão por ler
Não olharia assim pra mim
Não falaria assim comigo
É tão fácil descobrir
Que meu coração está contigo

Eu sei, você é inteligente
Abra a sua mente, há outras formas de ver
Então se atente, me leia de forma diferente
E você vai entender
O que eu quero te ensinar

Quando eu me perco
É só pra você me encontrar
E é de propósito que eu esqueço
Só pra você me lembrar
Eu só faço isto porque eu te quero bem perto
A me observar

Quero que conheça um mundo inédito
Tenho certeza que vai gostar
Mas antes que eu me canse
Pelo menos tente
Se você não me ganhar agora e a cada dia
Pode me perder pra sempre

Eu tenho mania de gente
Que ama demais e precisa se esquivar
Na intenção de preservar um amor
Que é caro
E raro
De se encontrar

Kelly Abrantes


Dentro do meu Olhar


.
Vou lhe chamar com meu olhar
Furtivo e mudo
Mas falante
Que olha como quem contempla o sol
Olhos cerrados
Para quem deseja contemplar
Além do que os olhos abertos
São capazes de enxergar

Lhe capturar como se fosses
Em totalidade frases
Corpo e alma de palavras
Para ler-te letra a letra
De sílaba em sílaba
Transportar-te por inteiro
Para dentro do meu olhar
Sem uma vírgula sequer
Para trás deixar
Permutar as tuas letras
Novas frases contigo formar
Desvelar os segredos ocultos
Antes do teu despertar
Lhe deixar um bilhete escrito
"Fique à vontade em teu novo cativeiro
O meu olhar"

Sem trancas ou amarras
Lhe prender
Tão somente com a magia dos meus olhos
Lhe deter
Com voz suave
Lhe dizer
Que és livre para ir
Quando quiser
Mas sempre estarei contigo
Onde estiver
Pois sou o traçado das letras
Que lhe escrevem
E a forma das frases
Que definem teu lugar
Em qualquer parte do mundo
Sempre dentro do meu olhar

Kelly Abrantes


Busco-te Em Meus Versos


Minhas mãos de mal da caneta
A caneta de mal do papel
O papel deixado num canto
Entre nós dois um intransponível véu
Que não me deixa ver teus olhos
Que me priva do teu mirar
Que me impede de tocar tua pele
Que me afasta do teu respirar
Que outrora era rente ao meu
Agora todo ar desapareceu

Ando sem chegar
Pois para aonde ir não tenho
Se de ti não posso me aproximar
Tanto faz qualquer lugar
Eis a anatomia de minh'alma
É composta de ²/4 de SAUDADE
Os outros ²/4 de SOLIDÃO
Que farei com papel e caneta
Se tudo que há em mim
É um vazio no coração?

O vento sopra suave
Nos meus ouvidos
Ele vem sussurrar
Um segredo oculto à minha mente
E só agora ele quis desvelar
Disse-me que através dos meus versos
Poderei outra vez ver-te
Poderei te reencontrar
Saber mais de ti
Contigo de alguma forma estar

Minhas mãos em paz com a caneta
A caneta de bem com o papel
Nele meus versos riscados tão rápido
Como uma forma de prece aos Céus
Então comecei a ver-te aos poucos
Como num quebra cabeças
Tua imagem comecei montar
Ver outra vez teus olhos
Que me arrebatam os sentidos
Me fazendo delirar

E nesta tua ausência
Meus versos em segredo disseram
Para um pouco mais lhe esperar
E aprender a ver-te em outros lugares
Onde estás
Espalhado por aí
Para com amor me cercar
O vento sussurrou-me que estarias
Na cor radiante daquela flor simples e sozinha
Que em sua beleza cativante
Enfeita um lugar qualquer onde nasceu
Onde a maioria nem percebeu
Que seu sorriso seria a nota mais suave
Daquela canção já há muito esquecida
Que aquele vento da madrugada
Inesperado
Traria de repente um abraço teu
Que as cantigas dos pássaros no meu jardim
Seriam recados de amor
Que mandarias para mim
Que o bater das asas de uma borboleta
Seriam tuas mãos me aplaudindo por aprender
Que não obstante haja trevas
O dia sempre haverá de amanhecer
E que o amanhecer seria um quadro
Presente teu
Para eu pendurar na minha parede
E recordar-te
E descobrir por amenidades
Como enfim reencontrar-te

Kelly Abrantes



Lençois de Seda


Tuas mãos espertas
Tecem teias invisíveis
Que incríveis
São os encantos do teu sorrir
Olhares misteriosos
Que lançam quebrantes e feitiços
Me transformam em presa fácil
Me emaranhando nos teus fios
Que me arrastam até a ti
Me deixo levar pelo magnetismo
Da tua voz suave que me inebria
Quem diria
Que eu não seria capaz de reagir

E assim
Tu vais aos poucos me capturando
Cada um dos meus segredos desvelando
E os usando para me prender
Suavemente me matando
De amor
Me dominando com teu calor
Me embrulhando
Nos teus lençois de seda nobre
Pobres são os que deixam
Por ti se conquistar
No intento de um dia virar o jogo
E assim lhe aprisionar

Coração livre de laços
De figuras oníricas repleto
Diga-me o que lhe apetece
O que pode lhe agradar?
Qual o teu maior sonho?
Permita-me lho realizar
Qual o caminho para o teu coração?
Deixa-me o encontrar
Devagar lhe conquistar
Tão somente ao teu lado estar
Jamais me faltes enquanto eu viver
Já que me arrebataste os sentidos todos
Ao menos prometa não me esquecer

Kelly Abrantes

Sobre a Saudade



Saudade de uma terra onde eu nunca estive/ de um caminho onde eu nunca trilhei/ dos planos que eu jamais fiz/ dos sonhos que eu nunca realizei/ Saudade que me consome o ser/ que me rouba a calma/ que me faz viver/ que me arrebata a alma/ Saudade, signo do desejo/ ausência de uma presença ausente/ presença de uma ausência presente/ Saudade, sentimento incongruente, impotente/ sentimento que não se vê ou se explica/ sentimento que apenas se sente/ Saudade que me submerge o passado e que faz arder em chamas o meu futuro/ Saudade do que eu jamais tive/ saudade do que eu perdi/ saudade de mim/ Explícita saudade latente do fracasso que eu não fracassei/ das flores que eu não plantei/ das sementes que eu não reguei/ Saudade que brota da morte de uma vida/ e se torna a vida de uma morte/ que se morre em cada viver/ e que se vive em cada morrer/ vida e morte que habitam em mim/ Saudade impertinente que da face me rouba o sorriso/ que o brilho me tira do olhar/ que sopra a chama da vela/ que não me permite cantar/ nem contar ou construir a história de um dia/ que por estar em minhas mãos eu logo perdi/ Saudade que não se acaba, saudade sem fim.

Kelly Abrantes


Vestígios


Fotos com rostos colados
Desenhos com corações flechados
No tronco de uma árvore
As iniciais de dois apaixonados
E encantados
Ficam os que leem os recados
Deixados em cada canto
Aguardando serem encontrados
Palavras ternas que beijam os olhos
De quem as contempla
Beijos guardados que beijam sem avisos
Ainda há ecos de sorrisos
Telas com esboços do paraíso
Talvez sejam vestígios
De que o amor tenha estado aqui
Dizeres afetuosos anotados num caderno
Que está sobre a mesa
Palavras etéreas
De surreal natureza
Embebidas na beleza
Dos versos de um poema
Com o fragor das framboesas
Firma a certeza
De que o amor esteve aqui

Imagem triste refletida nos cacos
Que estão pelo chão
Sentimentos quebrados
Corações despedaçados
Paredes impregnadas de solidão
O vento apagou a chama das velas
Tudo está envolto pela escuridão
O aroma suave das delícias da paixão
Foi tocado para longe
O que se sente agora
É o odor da putrefação
De algo que parecia eterno
Mas que foi devorado
Por uma erosão
As palavras mancaram
Deu-se início a destruição
O mais bruto diamante se tornou em poeira
E foi espalhado pelo chão
E então
Mundos foram inundados
Há lenços com lágrimas encharcados
O sorriso sucumbiu ante o pranto
O silêncio quebrou o encanto
O amor foi embora daqui

Kelly Abrantes


Passando


Lá vem ela com seu caderno nas mãos
Tão triste
Quase sempre chorando
Ela vem e passa
Ela nunca pode ficar

Lá vem ela querendo sorrir
Mas as lágrimas nos olhos
Não deixam ela dormir
Quando seus olhos brilham, eu não vejo

Cabisbaixa, ela não recebe meu beijo

Lá vem ela tão só

Tão bem acompanhada
Sempre falante
Ela conta seus segredos
Eu não entendo seu idioma

Lá vem ela óbvia demais pra ser verdade
Pouco oculta para ser segredo

Ela mostra suas cicatrizes
Mas ninguém acredita
Há algo oculto em sem olhar

Lá vem ela com segundas intenções

Com seu sorriso encantador
Quem é capaz de resisti-la?
Sua doce voz nos convida
E inocentes, a seguimos

Lá vem ela em sua plenitude
Irreconhecível ela está
Ela se transformou e nem percebemos
Ou será que não quisemos notar?
Quem é ela agora?

Lá vem ela carregando as malas
Tão cansada

Ela pensa em parar
Mas isto ela não pode fazer
Ela vive em passar

Lá vem ela despedaçada
Dolorida demais
Juntando os cacos pra colar
Ela é que nem quebra cabeças
Que eu nunca consigo montar

Lá vem ela cheia de determinação

Dor no coração
Espada e escudo nas mãos
Pronta a atacar
Acho que ela veio me matar

Lá vem ela perfeita demais em seu mundo imaginário

Mundo que é só dela e de ninguém mais
Tão egoísta ela é
Lá vem ela sorrindo feliz ao morrer
Queimada nas chamas do seu próprio orgulho.


Kelly Abrantes

Auto Flagelo


Tudo o que faz doer, o que corta
O que é pontiagudo e assombroso
O que é alto e perigoso
O que não é vantajoso
E o que sempre falta
É o que amas nas profundezas do teu coração
Sombrio e doce
Ingênuo e perspicaz
Sempre amando o que ficou para trás

Se tu ganhas a Via Lactea de presente
Delas tu queres apenas uma estrela cadente
Para dela sentires saudades para sempre
Do buquê de rosas tão raras e caras que te ofertam
Tu amas apenas os espinhos
E com tuas mãos tão finas os quer acariciar
Só para vê-las doer
Machucadas a sangrar
Do sol não admiras o nascer
Apenas o poente
Que com sua cor âmbar
Lhe causa uma nostalgia que te deixa doente
Da árvore frondosa não queres o fruto ou a sombra
Não deseja
s dela te servir
Só queres ouvir o barulho incessante
Dos seus galhos e folhas
Que a noite não lhe deixarão dormir

Do fogo não esperas o calor
Mas a queimadura
De toda razão que tu tens
Escolhes a loucura
De todas as canções
A mais triste
De todos os sabores
O mais amargo
De todas as cores
O desbotado
De todos os palácios
O que está inacabado
De todas as companhias
A solidão
De todas as escolhas
A angustia no coração
De todas as posses
O não ter
De todas as outras coisas que podes ser
Você

Kelly Abrantes


E Agora?


A poesia se retirou da minha voz
Dos meus olhos o brilho foi embora
E frente ao espelho eu me pergunto:
"Quem sou eu agora?"

Se tu não podes ser o tema das minhas canções
A alegria das minhas diversões
E o motivo das minhas preocupações
Eu miro o horizonte e pergunto:
"Onde estou agora?"

Se eu não encontrei nos teus braços o abraço
Se minhas mãos ficaram por te achar
Se eu não ouço a tua voz a me dizer
Qual rumo devo tomar
Eu pego o mapa e me pergunto:
"Para onde irei agora?"

Já que te perdi e me perdi de ti
Já que tanto faz qualquer lugar
Nas voltas que o mundo dá te encontrarei de novo
Ou elas só farão minha sorte se distanciar
Eu olho nos meus olhos e afirmo:
"Não há mais nada a dizer agora!"

Kelly Abrantes


Curiosidades


Me diz se o que os meus olhos vêem são verdade
Ou se há uma verdade oculta por trás do meu olhar
Me diz se o que os meus ouvidos ouvem são de fatos sons
Ou se é apenas o barulho de uma água fervente a borbulhar

Eu só quero saber, me ajude a entender o porquê
Tão somente ensina-me a ler
Cada frase de maneira correta
Para que eu possa perceber
Os segredos escondidos entre as palavras
Das canções, poemas, lamentos e orações

Me diz do que o amor é feito e do que ele se alimenta
O que são os sonhos, o sabor da alegria
E como não naufragar numa tormenta
Me diz que é verdade que existem várias cores
Além dos tons de cinza que conheço
E que não é em vão a minha busca

Me diz o que é o sorriso e qual é a sua fonte
Me diz por que dizem que o tempo é um quando eu vejo três
Normalmente, lentamente, rapidamente a passar
Me diz se você já viu a lua a brilhar

Me diz que sempre haverá respostas toda vez que eu perguntar
Que em cada fim haverá um novo começo
Que eu encontrarei meu endereço
Que eu poderei retornar
Me diz que tudo agora é somente um pesadelo
E que em poucos segundos eu irei acordar

Kelly Abrantes


Reflexos Cíclicos


Imagens sobrepostas
Velhas propostas novamente no ar
Qual planta criaste raiz chão a dentro
Ou como num passe de mágica
Abrirás as tuas asas para voar?

Canções diferentes para dizer a mesma coisa
E se esta coisa for o mesmo dialeto
Louco e incerto
Torto e irregular
Qua já há muito tempo deixastes de falar
Talvez tu o tenhas esquecido
Talvez ele não soe tão bem aos ouvidos
De quem deve escutar
Talvez seja melhor se calar

Uma chance em um milhão
Sorte que não se repete
Nota aguda num trompete
Será de bom alvitre arriscar outra vez
Sem carta marcada
Sem saber os números da sorte
Sem saber jogar xadrez?

A sua lógica está meio ilógica
Neste jogo que é só lógica e matemática
Que você já se esqueceu
Ou talvez nem aprendeu

O mundo gira, revira e costuma misturar
O mar de vozes que tu ouves
E destas tantas que te falam
Qual decidirás escutar?

Pela fresta da porta eu vejo o tempo que vem
Eu tento te avisar
Não quero te ver sucumbir
Ah! Eu sei de tudo
Já conheço o teu futuro
Mas tu não queres me ouvir
Tu tapas os teus ouvidos
Fecha os teus olhos
E sempre te desvias de mim

Mas se para ti é tão bom assim
Que seja então
Eu calo a minha boca
Não lhe dou opinião
Eu ficarei de longe
De mim não ouvirás reclamação
Porém saiba que eu sempre estarei aqui para lhe acolher
Quando sentires dor no coração
E quiseres outra vez ser você

Kelly Abrantes


Alma em Negócio


Sempre me marcando
Aos poucos me roubando
Me usando e me jogando pra lá
Cada vez mais me apertando
Me tirando o espaço e me sufocando
Eu só queria respirar

Me resta pouco tempo para sonhar
Tudo está à beira de acabar
E o que eu tenho
Além de um desenho
Paisagem que desdenho
Mas no fundo quero comprar?
O preço custa minha
Eu tenho interesse
Eu até topo pagar
Eu daria tudo o que eu tenho
E um pouco mais até esgostar
Mas não sei se o meu tudo é suficiente
E se será o bastante para te pagar

Mas se assente aqui do meu lado
Vamos prosear um pouco
Vamos barganhar
Talvez eu tenha algo que te sirva
Que é só meu
E não pode ser encontrado em outro lugar
Talvez seja a última peça que lhe falta pra ganhar
Teu jogo insano de poder
E assim manter teu status de Ser
Posição que não desejas perder
Talvez eu tenha algo que possa te apetecer
Eu te dou esta coisa
E em troca você em deixa viver
Mesmo que aos teus olhos isto pareça sofrer
Talvez seja difícil entender
Mas é neste ponto que se encontra
O milagre do renascer

Se você não quiser, tudo bem
Eu sigo te odiando
Você segue me matando
E nesta briga vamos lutando
Até o osso esfarinhar
E se ainda cabe em ti sugestão
Eu vou falar
Me faça um drinque
Uma taça cheia de loucuras
Misturada com agruras
Só pra eu tomar
E ver minha alma se exaurindo
E o teu poder sucumbindo
No apagar do meu olhar

Kelly Abrantes


Eu me Escrevi


E daí se eu acho um pouco, dez muito menos e zero demais?
E se eu não me importo com todo o alvoroço que você faz?
E daí se eu escrevo embolado, complicado e fora da linha?
E se eu nem ligo por você estar na minha?
E daí se eu risco o corpo inteiro com caneta
E depois não tomo banho?
E se eu não estiver nem aí se você achar isto estranho?
E daí se eu cultivo papoulas no quintal
Só para garantir meu ópio?
E se pra mim tanto faz a descoberta que você fez no microscópio?

O rascunho de mim mesmo quem fez fui eu
Fui eu quem me escreveu
Então antes de Você vem Eu
Eu sei a cada dia me inventar
Então nem venha
Se a intenção é me mudar
Se queres que eu te ache importante
Vá primeiro estudar
Aos pés dos poetas e sábios
Que já deixaram de ensinar
Se ainda houver em ti sapiência
Serás capaz de os escutar

Percorra o mundo inteiro
E que esteja sempre afiado
O teu português brasileiro
Para quando formos conversar
Porque só assim você poderá me entender
Quando eu falar
Que sou assim um tipo meio louco
Com a cabeça nas nuvens
Com perguntas sem respostas no ar
E somente aprendendo estas coisas vãs
Vestidas de elegância
Mas para mim de nenhuma importância
Conseguirás ao meu lado caminhar

Kelly Abrantes


Dívidas Antigas


Eu quero voltar
Mas não há para onde
Me perdi na estrada
Tento voltar ao meu passado
Mas a porta está fechada
Até sei abri-la com uma combinação de letras
E uma canção encantada
Ainda receio que minha alma não esteja preparada
Por enquanto
Enquanto ainda arrumo minha munição
Cujo poder bélico se equipara ao de um canhão
Cuja sutileza é mais leve
Que bolha de sabão

Dentro em breve os portais
Diante de mim se abrirão
A porta que agora está fechada
Se abrirá ao som do trovão
Da minha voz tão meiga
Que fará teu coração
Derreter feito manteiga
Quando eu começar a falar
Na solidão do teu quarto
E do outro lado das montanhas
Você escutar
Minha voz que há tempos não ouves
Nos teus ouvidos sussurrar
"Ahavá"

Te transportarei para o alto da montanha
Te farei recordar
Do passado que quisestes anular
Que agora eu faço questão de lembrar
Promessa pode até não ser dívida
Mas eu faço questão de cobrar
Não te soltarei da minha teia
Enquanto você não me pagar

Eu já estou voltando
Já sei bem para aonde
Encontrei a estrada
Estou no futuro
Com a porta escancarada
Aberta por palavras
Que só eu sei dizer
Posso até te emprestá-las
Mas você não saberá ler
Se eu fechar a porta
Você não poderá sair
Então vamos fazer um trato
Aí te deixarei partir
Você me paga o que me deve
E eu abro a porta
Você poderá ir
E até fingir que não me conhece
Se por acaso um dia me vir

Kelly Abrantes

Transições



Dançando sozinho
Delirando ao chorar
Doente, definhando e morrendo
Desiludido a caminhar
Que passe

Descobrindo a vida
Degustando o amor
Deleitável, aprazível dissipando o horror
Destemido ante a dor
Que fique

Desbravador viajante
Distinto ao governar
Díspar, diferente de todos
Discípulo e mestre de si
Que seja

Dedilhando uma harpa
Dorme, sonha e descobre
Desperta desesperado já sabendo
Que passou
Que ficou
Que foi

E o que passou
Foi o que conseguiu ficar
E o que ficou
Não poderia ser
Se não passasse

E o que ficou
Há muito já não é
Pois muito quis ser
E o que é
Jamais permanece

Pois sempre
Tudo é
Um eterno vir a ser
Que só é
Quando se foi



Kelly Abrantes


Disritmia





Está chovendo lá fora
Inundação por toda parte
Sou eu chorando aqui dentro
A dor que me abate
Está tremendo tudo lá fora
Nada consegue se firmar
Sou eu protestando aqui dentro
Contra a confusão que vem me assolar

Quem me acalma nesta hora?
Quem pode me consolar?
Quem consegue enxugar o meu pranto?
Quem é capaz de me fazer calar?

É você
O chão que eu piso
As asas que eu tenho
O teto que não me deixa voar

É você
Que me deixa alegre
Que me entristece
E me faz chorar

É você
Que me dá corda
Que me quebra a perna
E me manda andar

É você
Que está sempre comigo
Que anda sempre partindo
E me deixa tão só

Você é quem me acalma
Mas também me enlouquece
Me faz atingir as alturas
Mas me precipita de lá

Você, a minha droga
E também o meu vício
A minha doença
E a minha medicina

É você quem me consola nestas horas
Mas aos poucos me mata
Sempre sorridente vem
Mas a vida me arrebata


Kelly Abrantes


Indiferenças



Muitas coisas há ante as quais me calo
Não por falta de argumento
Pois os tenho em abundância


Por que me calo não sei bem
Talvez o silêncio me arrebate a voz
Porque não valha a pena falar
O que milhares de vezes já foi dito e repetido
Sem efeito algum surtir
Talvez as pessoas não mereçam ouvir

Palavras belas e meticulosamente escolhidas
Argumentos mui bem articulados
Discurso magnífico
Todos em pé aplaudem
Mas são palavras ao ar
Levadas pelo vento do esquecimento

Pouco tempo se passou
E quem delas se lembra?
E os que as recordam fizeram algo?
Elas se tornaram lembranças românticas
E símbolos de impotência
Quiçá raiz de indiferença

Palavras apenas ouvidas domesticam o poder.

Muitas coisas há ante as quais me revolto
Não por motivo ou causa aparente
Pois estes me faltam
Por que me revolto não sei bem
Talvez este sentimento que se mistura ao meu sangue
Seja testemunha d’alguma injustiça
Que ninguém foi capaz de notar
E só ele foi capaz de perceber
E se cansou de esconder no silêncio

Barulho ribombático no ar
Estilhaços por todos os lados
Mundos feitos em pedaços
As pessoas estão estarrecidas
É apenas minha raiva querendo se acalmar
E se livrar das coisas que a tornam doentia

Muito tempo se passou
E todos insistem em recordar
E comentando fazem julgamentos
A punição que receberam
Se lhes tornou em ferida aberta na carne
Lembrança permanente de seus delitos dissimulados

Cenas freqüentemente repetidas acendem a ira.


Kelly Abrantes


Acelerado



O Tempo passa
e eu tenho pressa.
O Tempo voa nas asas de uma borboleta
cuja vida há pouco começou
cuja morte já se aproxima.
O Tempo passa e eu tenho pressa
não me posso demorar.
O Tempo caminha na concha de um caracol
que lentamente rasteja
rasteja devagar
mas pegou carona em um avião que velozmente vai voando.

Oh caligrafia minha, que muda no ritmo do coração
embalado pelos sentimentos
experimentados pela alma
visto pelos olhos que meu desejo agora tem.
Depressa preciso escrever, pois tenho pressa em ir.

Sedenta está minha alma
desejoso de ar os meus pulmões.
Os meus olhos anseiam pela luz
e meu coração deseja novamente
bater no compasso das canções
que foram escondidas entre as estrelas – a sinfonia dos céus.

Rápido preciso chegar à fonte de águas tépidas
e nela mergulhar meu corpo cansado
da longa jornada
que há muito faço.
Por isso tenho pressa
e depressa preciso ir.
O Tempo passa rápido
e eu preciso correr
para que à sua frente
reste-me tempo de sorrir.

Kelly Abrantes

Observações


Tão triste e só

Solitário, assentado
Balançando sem parar
Com pensamentos vagueando
Parado no tempo que insiste em passar

Criatura bela
De alma nobre e encantada
Tem sua alma na tela
Em tons de cinza, estampada

Na mão uma flor
No coração uma dor
E nos olhos um pesar
Na voz um canto triste
Com sua mente a delirar

Seria o delírio verdade
Ou realidade a ilusão?
Sem respostas concretas
Segue rumo à solidão

Peregrino por natureza
Sem rumo ou lugar
Apenas caminha incerto
Sem saber aonde chegar

No chão rabiscos feitos com gravetos
No horizonte uma dúvida no ar:
O que vês por trás dos teus óculos
Que fazem teus olhos chorar?
O que tanto ouves
Para quase sempre teus ouvidos tapar?
E por que emudecido
Te recusas a falar?

Nos pés um andar sorrateiro
Que sutilmente ruma ao desfiladeiro
Onde cabe apenas teu corpo doído
Ávido por encontrar
Um pouco mais de espaço
Pra teu projeto executar

A construção de um labirinto
E nos desencontros assimétricos dos seus corredores
As tuas partes perdidas encontrar
E não obstante a todas colar
Sabes com todo teu ser
Que ao teu passado interrompido
Jamais poderás se reconectar


Kelly Abrantes

Desejo de Entender


Eu só queria conversar com aquela “velha senhora”
Eu só queria entender melhor a sua história

Me parece um pouco estranha a sua trajetória

Não faz muito tempo que ela fez vinte anos

Mas quem a ouve pensa que ela tem oitenta anos

Rugas ela não tem, cabelo branco muito menos

Ela é uma “velha senhora” em seus sofrimentos

Me digam o que há de errado com ela
Faz muitos anos que a vida passa

E ela só olha da janela

Seu corpo está cansado, seu olhar marejado

Em seu pulmão um suspiro carregado

Do seu sofrimento ela me falou:

“Não marcou o corpo, mas a alma despedaçou

Uma alma feita em cacos, quem poderá colar?

Um coração rasgado, quem pode costurar?

Com tanta dor, quem consegue sonhar?

É ferida sem remédio, é problema sem solução
É tormento contínuo, cujos que não sentem jamais entenderão
É um passado perdido por um presente de mau gosto

É um futuro incerto sem um sorriso no rosto
Muitos meneiam a cabeça

Dizendo entender sem hesitar

Mas verdade é que entender
Não significa experimentar”


Kelly Abrantes

Sobre o Ser


Quem sou?
Sou o que não sou,
Por isso estou, e não sou.

Quem sou?
Sou uma palavra que não se pode ler,
Um som que não se pode ouvir,
Sou um grito silencioso que perde a força antes mesmo de sair.

Quem sou?
Sou uma incógnita, um x e um y sem resposta.
Sei o que sou, mas o que sou, só pra mim o sou.

Quem sou?
Sou um enigma que todos querem desvendar,
Porém a resposta certa eu nunca lhes permitirei achar,
Pois sou para mim, e não para os outros.

Quem sou?
Sou um ser cujo silêncio é inexorável,
Sou quem tem a identidade cujo único conhecedor é o Insondável
O Grande Mistério do universo

Quem sou?
Sou quem está na prisão, mas tenho um estou,
Por isso estou nas ruas, nas lojas, nos shoppings,
Estou com as pessoas, estou nos círculos estudantis,
Estou em meio a multidão, fingindo que sou.

Quem sou?
Sou o devir que está por vir,
Sou talvez uma contradição


Kelly Abrantes

Sobre Coisas no Caminho


Muralha alta, muralha grande
Muralha intransponível
Esta que hoje eu vi
Vi também um sonhador
Pondo-se a sorrir
Não sorria para a muralha
Não sorria para mim
Sorria porque tinha um plano
Que faria a muralha ruir

Com ódio consumado ele a odiava
Pois no caminho que ele traçara
Para seu sonho alcançar
Ergueu-se aquela alta muralha
Que a todos impedia passar

Aquela alta muralha
Bela e suntuosa
Nada cercava e de ninguém era
Propósito algum tinha senão estar no caminho
De quantos quisessem passar

Pedras nas mãos
Pedras ao ar
Pedras lançadas ao vento
Pedras contra a muralha de pedra
Com simples pedras
O sonhador a quer derrubar
Mas o que há de estranho nisso
Se ele é um sonhador?

Então disse eu ao sonhador:
“Acaso podes com simples pedras”
“Fazer a muralha de pedras ruir?”
Ao que disse ele a mim:
“Tudo que sei é que ela aqui não pode ficar”
“E se eu não derrubá-la”
“Minh'alma aqui, à cova descerá”.

Quando o contemplei a lutar contra aquela muralha
Como quem luta pela última chance de viver
De súbito algo eu pude aprender
E compreendi que a realização de um sonho só é plena
Quando ele é realizado por inteiro

Para o seu objetivo alcançar
O sonhador poderia outro caminho trilhar
E se desviasse daquela muralha
Ele também chegaria lá
Mas se ele alterasse o caminho
Seu sonho também seria alterado
Pois o sonho não consiste apenas em “chegar lá”
Ele é também “todo o caminhar”



Kelly Abrantes

Morte

.
Na palma das minhas mãos
Teu corpo tão pequeno a descansar
Com calma dormindo
Sem ter pressa de acordar
Momentos tão simples, tão lindos
Que não me esquecerei jamais
Hoje as mesmas mãos te procuram
Mas não lhe encontram mais

Eu lhe tive, na palma das minhas mãos te segurei
Mas o tempo passou qual correnteza de um rio
Ou como as lágrimas que na minha face correm sem parar
Como elas correu o tempo
Que não te deixou ficar
Eu lembro dos teus olhos tão brilhantes
Cintilantes, tão fitos a me olhar
Tão vivos, que sem dizer palavra alguma
Eram capazes de falar
E dizer os teus desejos
Que quase sempre ficavam por realizar

Eu sei que teu corpo pequeno
Para lugares longínquos já foi
E algumas vezes longas distâncias percorreu
Eu sei que você já brincou muito, se divertiu, correu
Passou por alguns apertos
Não teve o melhor da vida
Mas sobreviveu

O tempo que passa e nos leva sempre com ele
Passou mais rápido para ti nos últimos dias
E as cortinas dos teus olhos ele fechou
E trôpegos, os teus passos ele tornou
Tua respiração e as batidas do teu coração
Já não mais se encontravam no compasso
Da música da juventude
Tua vida foi se desafinando
E com ela tua saúde

Foi triste te ver tentando me ver
Por entre as cortinas cinzas e brancas do teu olhar
E com dificuldade se movendo
Com passos cambaleantes tentando até mim chegar
Hoje o dia amanheceu
Mas se esqueceu de te trazer com ele
Hoje eu não te tenho mais
Resta-me agora apenas tua falta
Que eu sentirei demais
Ao chegar e não te ter para me receber
Ao ir e não te ter para me esperar
De jamais poder te ver outra vez quando eu chegar

Agora os céus choram
Sobre tua cova uma chuva fina
E o peso da terra que está sobre teu corpo ínfimo
Comprime também meu coração
O fazendo chorar lágrimas de saudade
Que assim como a chuva
Molham o teu chão
Tua nova morada - fria e solitária
De todos os sentimentos
Resta-me a saudade
De todas as palavras
Resta-me apenas o “adeus”

Kelly Abrantes

08/09/2008

O Errante


Errante, sem habitação ou destino. Chamam-no Errante. E errante vai rumo a qualquer lugar. Errante, se sente enfadado de tanto caminhar. Errante.
Sem direção vai o Errante e se senta debaixo de uma quaresmeira. Tem ele o corpo castigado pelas mazelas dos caminhos onde passou. O coração no peito lhe aperta com uma dor tamanha, que jamais alguém poderá descrevê-la, apenas mencioná-la. E a dor que lhe punge o peito lhe abre uma ferida cujo jorrar de sangue lhe submerge a alma. Mas sábio, ele transforma este sangue em lágrimas que por seus olhos saem lavando-lhe a visão de todos os horrores que um dia viu.
Ali, debaixo da quaresmeira ele sente sua dor, ele chora, ele pensa e dorme. Ali ele acorda e vê diante de si algumas criancinhas com sorrisos estampados na face a observá-lo. E contagiado pelo encanto delas, ele também sorri. Elas passam então a inquiri-lo sobre o conteúdo de seu alforje. Ele as responde dizendo que possuía apenas uma folha onde costumava desenhar um mapa com os caminhos que trilhara e escrever algumas poucas coisas que pensava ser interessante.
Sentando-se ao redor dele, as criancinhas lhe pediram para contá-las sobre as coisas que ele pensava ser interessantes. Ao que ele disse: “Oh meus pequenos infantes, das coisas que escrevi, não cogitais vós agora, mas o tempo chegará em que lhes será interessante sabê-las. Por isto lhas escreverei para vós, e vos pedirei que as guardem até o tempo em que elas se abram para os vossos olhos”. E assim ele fez; escreveu, entregou-las às crianças e partiu. Tempos depois aquelas crianças – agora já crescidas, passaram a ler as palavras deixadas pelo Errante.

Se vos encantar a alma o som do sorriso de uma criança mais que a todos os sons, mais até mesmo que o som da mais bem conceituada orquestra a tocar as mais famosas sinfonias, amai mais o som deste sorriso, sem medo ou culpa. Amai-o. E se vos taxarem tolos entendais que tais pessoas que assim dizem são por demais pequenas para entender a vossa grandeza.
Se vossos pés desejarem ir rumo a um lugar jamais trilhado, ide, sem medo ou culpa. Muitos dos caminhos que hoje existem nasceram no desejo de pessoas que ousaram.
Se desejardes escrever de forma diferente das já conhecidas, se desejardes mesclar linguagens e estilos, gírias novas com palavras antigas, façai-lo, sem medo ou culpa. São as novas combina
ções e misturas as condutoras de vida a uma língua. Esta é a possibilidade da dinâmica do idioma que se abre para vós.
Se vos aborrecerdes de sempre ler os pensamentos de outrem, pensai, sem medo ou culpa. Os pensamentos, contos e histórias que hoje vossos olhos lêem, muitos deles só nasceram porque alguém se cansou dos anteriores e quis ir além. Não entendeu o “ponto final” como final de tudo, mas como uma pausa para que se formulassem novas coisas. Respeitai sempre o que já existe, mas prossigais.
Não desejais jamais serem outrem. Seja como for, sejais vós mesmos, sem medo ou culpa. Sejais plenamente vós, mesmo que sejam contraditórios a si mesmos. As
pessoas que hoje são ditas grandes só se tornaram assim porque um dia cansaram de viver à sombra de outrem, sendo como cópia e plágio seus. Elas se afastaram do centro, mas não se tornaram marginais, pois ousaram e a si mesmas criaram. Parafrasearam apenas o desejo de serem sublimes.
Não tenhais jamais vergonha de sonhar e dizer vossos sonhos. Sonhai sem medo ou culpa. Sonhai-os plenamente, pois são os sonhos que dão vida ao mundo. Somente se prossegue quando se sonha.
Não vos preocupais se, tendo feito todas estas coisas vos deparardes com alguém com
o vós, dizendo as mesmas coisas, tendo os mesmos pensamentos, trilhando e ousando como vós. Pelo contrário, alegrai-vos. Sim, alegrai-vos sem medo ou culpa. A realidade é que ambos compartilham da mesma alma e bebem da mesma fonte.
Não vos esqueçais jamais de mim. Em sã consciência ou em d
elírios, recordai-vos sempre da minha pessoa, sem medo ou culpa. Talvez agora enquanto lês o que vos escrevi há tempos, eu já não mais exista sobre a terra dos viventes. Mas não importa meu corpo, pois sou a Possibilidade que se abre ante vossos olhos. Sou a possibilidade de libertação das vozes que habitam os abismos, das vozes grávidas de mundos. Não esqueçais de mim!
Mais coisas vos queria ainda falar, mas cansado estou e não posso permanecer aqui. Não vos dei um mapa com caminhos ou com estas palavras vos quis ensinar a Sabedoria. Apenas vos escrevi pensamentos de minha alma, que lhes poderão ser de grande valia se um dia quiserdes deixar a mediocridade – ainda que se tornem errantes.
Leiais sempre estas palavras, façam elas sentido ou não. Leiam-nas sem medo ou culpa, sem preguiça. Leiam-nas sendo coerentes ou não. Leiam-nas apenas pela sonoridade que cada palavra aqui escrita possui. Por amor ou por ódio, por indiferença ou por saudade, leiam-nas.”

Kelly Abrantes


23/08/2008

Sobre Poetas e Profetas*


Poetas, tão brincalhões, tão profanos e irreverentes. Amantes do prazer transitório. Alma cheia de sonhos, olhos cheios de visões, corações fortes a bater.
Profetas, tão sérios, tão santos e reverentes. Devotos das coisas eternas. Alma repleta de preocupações, olhos procurando soluções, corações angustiados a bater.

Poetas, tão meninos
Profetas, tão responsáveis

Poetas, tão risonhos

Profetas a chorar

Poetas, tão calados

Profetas jamais deixam de falar


Mas um dia há em que os Profetas perdem o rigor e os Poetas se tornam responsáveis. Um tempo chega onde os Poetas se tornam falantes e os Profetas deixam de lado suas fissuras.
Um novo dia desponta no horizonte – Poetas agora são Profetas.
O sol está brilhante a raiar – Profetas amanheceram Poetas.
Poetas sempre foram Profetas. Profetas jamais deixaram de ser Poetas.

Poetas, tão sérios em seus afazeres, tão dedicados aos seus sentimentos, tão reverentes ante as coisas que os inspiram. A si esvaziam para dar lugar àquilo que amam. Alma rica em nobreza. Quem é capaz de experimentar seus sentimentos? Qual coração suportará a intensidade de suas emoções? Alma que habita dois mundos: Ao fecharem os olhos contemplam sorrisos e alegrias. Ao abrirem os olhos contemplam a face de um mundo frio. Eles querem dar vida a um mundo sem alento, por isso, abrem seu mais precioso tesouro – sua própria alma, e dela doam a todos quantos quiserem. Eis suas palavras suas frases, seus versos, seus poemas, seus livros – seu sangue àqueles que acreditam na beleza da vida. E dentro do peito, angustias no coração, pois só sentindo as misérias da vida podem eles gerar a beleza que eterniza as transformações.
Poetas, tão responsáveis, tão chorões, tão comunicativos. Mas quem há que os entenda?

Profetas, tão brincalhões consigo mesmos, tão profanos com as coisas alheias, tão irreverentes ante a face daquilo que não lhes agrada. Iconoclastas por excelência. Amam profundamente o tempo presente e as coisas do “agora”, por isso querem vê-las transformadas. Eles sonham acordados, e somente quando dormem enxergam a realidade. Por isso quando despertam são tão visionários. E no peito o coração lhes bate acelerado diante das perplexidades que os cercam e dos poderosos que os querem dominar. E os exilando matam-lhes o desejo do triunfo e do poder – seus sonhos mais secretos de amor.
Profetas, tão meninos em suas ambições, tão imaturos no agir, tão bobos que, à noite, ao irem dormir, acabam rindo de si mesmos. E no final, quase todos envergonhados preferem não mais falar. Quem em sã consciência a eles iria se aliciar? Talvez apenas aqueles que desejam se alienar.

Quem compreenderá o Ser que, ao contemplar-se no espelho enxerga um Poeta, mas que ao suspirar, percebe sua alma de Profeta?
Eu, como o menor de seus seguidores e o maior de seus admiradores me ponho a pensar neste Ser tão complicadamente simples, e tão comumente raro. Quem o decifrará?

Kelly Abrantes
*Dedicado ao poeta J. Willians