
Muralha alta, muralha grande
Muralha intransponível
Esta que hoje eu vi
Vi também um sonhador
Pondo-se a sorrir
Não sorria para a muralha
Não sorria para mim
Sorria porque tinha um plano
Que faria a muralha ruir
Com ódio consumado ele a odiava
Pois no caminho que ele traçara
Para seu sonho alcançar
Ergueu-se aquela alta muralha
Que a todos impedia passar
Aquela alta muralha
Bela e suntuosa
Nada cercava e de ninguém era
Propósito algum tinha senão estar no caminho
De quantos quisessem passar
Pedras nas mãos
Pedras ao ar
Pedras lançadas ao vento
Pedras contra a muralha de pedra
Com simples pedras
O sonhador a quer derrubar
Mas o que há de estranho nisso
Se ele é um sonhador?
Então disse eu ao sonhador:
“Acaso podes com simples pedras”
“Fazer a muralha de pedras ruir?”
Ao que disse ele a mim:
“Tudo que sei é que ela aqui não pode ficar”
“E se eu não derrubá-la”
“Minh'alma aqui, à cova descerá”.
Quando o contemplei a lutar contra aquela muralha
Como quem luta pela última chance de viver
De súbito algo eu pude aprender
E compreendi que a realização de um sonho só é plena
Quando ele é realizado por inteiro
Para o seu objetivo alcançar
O sonhador poderia outro caminho trilhar
E se desviasse daquela muralha
Ele também chegaria lá
Mas se ele alterasse o caminho
Seu sonho também seria alterado
Pois o sonho não consiste apenas em “chegar lá”
Ele é também “todo o caminhar”
Kelly Abrantes
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