18/02/2008

Sobre Aflições


“De profundis clamavi ad te Domine
Domine exaudi vocem meam fiant aures tuae intendentes ad vocem deprecationis meae”

E assim começa... Com algo que punge o coração e provoca um desencadeamento de processos correlatos. Então surge o clamor, vindo das profundezas de um ser perdido no vazio da existência. Deste abismo ecoa-se uma voz clamando por socorro. Clama porque sabe que sua voz, apesar de ínfima, será ouvida, mesmo estando em um grande sulco.
Lá das profundezas, brotam os pensamentos, as reflexões, as visões que não se consegue ter em um lugar plano... Profundezas: lugar de escuridão densa, mas ao mesmo tempo de uma fulguração enorme de luz e claridade. Eis um paradoxo.
Quando se está em um quarto escuro e repentinamente se acende uma luz, a escuridão parece sumir, mas não é verdade. Ela está lá, no mesmo lugar, apenas se passa a ver as coisas de forma diferente. Elas convivem juntas, no mesmo espaço; apenas não se manifestam ao mesmo tempo.
As vezes as coisas são tão claras que se tornam demasiado escuras. Deve-se ter uma escuridão no olhar para que se possa ver com clareza. Certa vez um sábio disse: “Doce é a luz, e agradável é aos olhos ver o sol”. Entretanto os olhos que se deixa levar pela atraente doçura da luz, acaba por ficar com uma visão turva. Talvez seja por isso que muitas coisas ficam no campo do especulativo.
Uma voz proclama: “Bem aventurados são os que possuem no seu olhar uma luz radiante!” Mas, das profundezas, uma voz reclama: “Infelizes são os que possuem no olhar a claridade de um sol!” Por que tal contradição? Eis uma pergunta que não pode ser respondida, pois a luz faz dela uma escuridão na qual nada pode ser visto. Mas a claridade fez do normal, algo maldito, algo que mais tarde veio a ser o que hoje é... Confusão e escuridão.
Por isso se tornaram infelizes os que não vêem tudo como na luz do dia. Sobre nós foi lançada uma maldição, um nome cujo estigma é por demais doloroso. Nós, os que vemos normalmente somos agora condenados a carregar no peito uma dor demasiadamente forte - porque vemos o que a maioria não vê. Isto nos consome por dentro, pois nos são atados os pés e as mãos e nada podemos fazer. Estamos condenados às profundezas do abismo. Será que um dia nosso clamor será ouvido? Será que em algum tempo ocorrerá um eclipse e tirará das pessoas o excesso de luz que elas carregam nos olhos, para que assim possam ver as coisas de maneira mais clara? Espero que sim. Mas talvez esse dia nunca acontecerá, pois a comodidade que os olhos da maioria enxergam é mais confortante do que a realidade. A realidade tira a “beleza” da ilusão que a luz criou nos olhos das pessoas. Seria muito para elas, depois de uma visão viciada, ver de uma forma diferente.
Então, enquanto a luz abundante está aí, tudo será dito em figuras - que na realidade é uma visão sem luz demasiada. Tudo está aqui... E quem quiser saber o que está escrito, basta se assentar no crepúsculo do dia que já se vai, e com ele muitas coisas também... Pode ser debaixo de um pinheiro, que cada vez cresce mais, cuja copa a cada dia alcança as alturas. Os olhos turvos um dia olharam para ele e desejou que como sinal de sua derrota fosse lhe dado um sinal. Mas que sinal seria esse? Seria a sequidão dos mais altos ramos do pinheiro. Houve tempestades, como agora está ocorrendo uma, aqui, nas profundezas do abismo. Houve substituições que em seu fim corroeram todo um sistema que por pouco não se acabou. Houve delírios, olhares vazios e ao mesmo tempo um cheiro de esperança, que parecia altamente tóxico ao ser inalado.
Mas o que aconteceu no final? O fim não chegou, pois a cada instante, sem que ninguém perceba ou dê atenção, o pinho cresce, como sinal de que tudo ainda não foi consumado. E o seu fragor parece - pelo menos agora - desintoxicar o aroma da esperança. Mas algo muito forte está por vir. Ou uma tempestade acabará com aquela árvore, ou um pedaço dela será estendido para que a mão que se encontra nas profundezas possa nele se apoiar e de lá sair... O estender do ramo do pinheiro será o “Domine exaudi vocem meam fiant aures tuae intendentes ad vocem deprecationis meae”. Mas isso só será visto pelos olhos que não absorvem toda a luz que lhes é oferecida. Tempus Fugit!

Kelly Abrantes

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