15/03/2008

Sobre o Anseio de Chegar


Por ermos caminhos andava aquela alma peregrina, sem rumo ou direção. Nem ao menos sabia de onde partiu, como pois haveria de saber onde chegar? Caminhava na angustia de saber que ninguém havia que aguardasse sua chegada, mesmo porque seu caminho era incerto. Caminho que se tornava caminhos, caminhos sem fim. Lá ia aquela alma peregrina, caminhando por caminhar carregando consigo apenas sonhos e imagens que esperava um dia encontrar. Caminho que desgastava seus sapatos e sua esperança. Caminho que fatigava seu corpo e sua alma.
Alma peregrina e cansada de sofrer. Ela busca agora apenas uma sombra. Descanso ao corpo ela quer dar. Ela quer apenas comida, ela quer forças para chegar. Chagar a um lugar que ela não sabe onde, mas ela quer chegar. Ela quer desfazer suas malas, ela quer se sentir em casa, ela quer ter um lar.
No caminho que ela andou, ela colheu flores, ela aprendeu a cantar. Ela pintou quadros, ela aprendeu a desenhar. A noite era para ela momento de regozijo, hora em que brincava de ajuntar pedras. O dia era como um amigo que a ensinava correr e colher os frutos das belas e frondosas árvores que ela encontrava na caminhada. Na chuva saciava ela a sua sede e do seu rosto podia-se colher um doce sorriso.
Mas este caminho, caminho que passa por muitos caminhos, um dia veio a mudar. E num instante, tornou-se demasiado assombroso. Se propôs a ser devorador das almas que nele um dia pisou. Despedaçou toda vida que nele floresceu. Fez cativa a noite, e a aborreceu de tal sorte que sua escuridão se tornou amarga. O dia já não mais se folgava em aparecer por ali. O sol de tal forma se irou, que passou a deferir contra aquele lugar raios escaldantes. Mas caminha a alma peregrina a procura de um caminho diferente. Caminho de vida e não de morte, depressa ela procura. Pois ela é alma de sonhos nobres e deseja cantar novamente as canções de alegria que outrora aprendera. Ela está envolta por roupas de morte, mas o que de fato lhe toca a pele e lhe cobre é o manto da vida, cheio de cores e desenhos. Vida que à vida lhe conduzirá outra vez, que lhe fará encontrar um caminho de paz. Caminho com pedras, com noites escuras e abismos ao redor. Mas é caminho plano, caminho certo, caminho que chega a algum lugar. Caminho que canta e faz cantar. Nele aquela alma peregrina poderá novamente cantar suas canções, seus olhos outra vez poderão brilhar. E mesmo que não chegue a lugar algum, ela já terá conseguido encontrar o que sempre almejou achar.


Kelly Abrantes

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