
Naquele dia os céus não choraram. A lua continuou a sorrir contente para a Terra e o vento não interrompeu sua caminhada por entre as cidades que os homens construíram. A Terra não se moveu quando contemplou o brilho dos meus olhos ir embora. Nem mesmo o tempo foi capaz de me estender as mãos; ele passava correndo ao meu lado e arrastava consigo o pouco de esperança que ainda me fazia sorrir. A minha existência estava se desmoronando, mas ninguém se atentou para isso. Somente o frio dos pólos me fez companhia. O rio seguiu normalmente seu curso levando consigo o sonho de uma alma ímpar.
Não houve ninguém que se dignou a abaixar-se para pegar no chão o pedaço de papel amassado onde foi escrito a história de um futuro. Era apenas um papel velho com palavras escritas a mão, é verdade – mas quem sabe reconhecer o poder mágico que as palavras possuem, carrega consigo a virtude de construir mundos infindos.
Era necessário apenas atravessar aquela velha ponte. Mas onde está ela que não mais a contemplo? Que não obstante procurar não a encontro? Estaria minha mente caducando? Estaria eu esquecendo a forma das letras que formam as palavras que constroem as frases que edificam os textos? A dor que abate minha’lma vem dos meus pés que não mais conseguem encontrar a trilha que me conduz novamente ao lar.
Os homens edificam jardins e constroem palácios. Eu apenas quis plantar uma flor. Mas a semente que eu semeei não pôde nascer; de desgosto ela morreu. Ela não pôde experimentar o doce destilar dos céus, a terra lhe negou abrigo e contra ela se irou o sol até queimá-la por completo. Mas que diferença isto faz se as pessoas não se atentam mais para a beleza de uma estrela solitária? Por certo, diferença alguma.
Um dia
Da minha janela
Por entre as minhas grades
Ao longe eu vi
Um gramado verde
Crianças brincando
E sem receio algum
Punham-se a sorrir
Lá haviam árvores
Lá haviam flores
E por entre as ramagens
Os pássaros cantavam
Inspirando as mulheres
Que alegres bordavam
E teciam suas próprias vidas
Em um pano
Os homens cantavam
E contavam estórias
Enquanto construíam
A história que um dia
Seus filhos contariam
Então eu olhei
De novo e outra vez
E nada mais pude contemplar
Senão uma estrada tenebrosa
Onde sem cor e sem voz
Meu futuro ia silencioso.

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