23/08/2008

Sobre Poetas e Profetas*


Poetas, tão brincalhões, tão profanos e irreverentes. Amantes do prazer transitório. Alma cheia de sonhos, olhos cheios de visões, corações fortes a bater.
Profetas, tão sérios, tão santos e reverentes. Devotos das coisas eternas. Alma repleta de preocupações, olhos procurando soluções, corações angustiados a bater.

Poetas, tão meninos
Profetas, tão responsáveis

Poetas, tão risonhos

Profetas a chorar

Poetas, tão calados

Profetas jamais deixam de falar


Mas um dia há em que os Profetas perdem o rigor e os Poetas se tornam responsáveis. Um tempo chega onde os Poetas se tornam falantes e os Profetas deixam de lado suas fissuras.
Um novo dia desponta no horizonte – Poetas agora são Profetas.
O sol está brilhante a raiar – Profetas amanheceram Poetas.
Poetas sempre foram Profetas. Profetas jamais deixaram de ser Poetas.

Poetas, tão sérios em seus afazeres, tão dedicados aos seus sentimentos, tão reverentes ante as coisas que os inspiram. A si esvaziam para dar lugar àquilo que amam. Alma rica em nobreza. Quem é capaz de experimentar seus sentimentos? Qual coração suportará a intensidade de suas emoções? Alma que habita dois mundos: Ao fecharem os olhos contemplam sorrisos e alegrias. Ao abrirem os olhos contemplam a face de um mundo frio. Eles querem dar vida a um mundo sem alento, por isso, abrem seu mais precioso tesouro – sua própria alma, e dela doam a todos quantos quiserem. Eis suas palavras suas frases, seus versos, seus poemas, seus livros – seu sangue àqueles que acreditam na beleza da vida. E dentro do peito, angustias no coração, pois só sentindo as misérias da vida podem eles gerar a beleza que eterniza as transformações.
Poetas, tão responsáveis, tão chorões, tão comunicativos. Mas quem há que os entenda?

Profetas, tão brincalhões consigo mesmos, tão profanos com as coisas alheias, tão irreverentes ante a face daquilo que não lhes agrada. Iconoclastas por excelência. Amam profundamente o tempo presente e as coisas do “agora”, por isso querem vê-las transformadas. Eles sonham acordados, e somente quando dormem enxergam a realidade. Por isso quando despertam são tão visionários. E no peito o coração lhes bate acelerado diante das perplexidades que os cercam e dos poderosos que os querem dominar. E os exilando matam-lhes o desejo do triunfo e do poder – seus sonhos mais secretos de amor.
Profetas, tão meninos em suas ambições, tão imaturos no agir, tão bobos que, à noite, ao irem dormir, acabam rindo de si mesmos. E no final, quase todos envergonhados preferem não mais falar. Quem em sã consciência a eles iria se aliciar? Talvez apenas aqueles que desejam se alienar.

Quem compreenderá o Ser que, ao contemplar-se no espelho enxerga um Poeta, mas que ao suspirar, percebe sua alma de Profeta?
Eu, como o menor de seus seguidores e o maior de seus admiradores me ponho a pensar neste Ser tão complicadamente simples, e tão comumente raro. Quem o decifrará?

Kelly Abrantes
*Dedicado ao poeta J. Willians

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