16/03/2008

Sobre Onde Habitar


Eis lá vem a criatura das extremidades de uma reta qualquer, desvelando sua essência em códigos decifráveis. Criatura habitante do cume dos montes e das cavernas subterrâneas. Habitante das mais longínquas terras do ocidente e dos lugares mais remotos do oriente. Criatura dos pólos gélidos e dos desertos escaldantes. Habitante dos lugares solitários e dos lugares mais solitários ainda. Poeira das estrelas e poeira da Terra. Afinal, qual é a tua morada? Onde está estabelecida a tua habitação para que aqueles que por ti procuram possam lhe encontrar?
Meus olhos te viram segurar a balança de Libra. Meus olhos te viram dentro de um dos pratos. Meus olhos viram ainda que o prato vazio jamais ficou nivelado ao teu. Ele olhava teu prato sempre acima ou abaixo de si. Meus olhos por fim puderam ver as respostas das indagações que da minha boca procederam: Aquele que mirar rumo à totalidade de alguma inteireza, por certo há de encontrar-te.
Eu sempre hei de saber onde lhe encontrar, pois sou seu próprio ser, sua essência, sua existência. Mas algo pode nos separar, e assim me perderei de ti.
Se eu habitar nas planícies, o cume dos montes será demasiado alto e o abrigo das cavernas subterrâneas por demais profundo. Nas planícies eu me perco de ti! Sim, eu me perco de ti.
Se estabeleço minha habitação na ponte que liga o ocidente ao oriente, ali eu me perco de ti! Sim, eu me perco de ti.
Se faço minha morada no agradável clima dos trópicos, se deixo a solidão sozinha para estar com outrem, se me torno poeira do espaço existente entre as estrelas e a Terra, sim, quando isto ocorre eu me perco de ti!
Eu me perco de ti, pois quando te nego torno-me habitante do exílio – lugar onde não suportas existir, pois a dor é tamanha que só lhe resta o caminho da ocultação para que não te reduzas à nulidade. A nossa essência se fragmenta e a corda na qual nossos fragmentos estão atados acaba por se mover e uni-los novamente em uma essência una e coesa que por fim volta ao seu lar.
Quando o lar desejoso é habitado, a paz entra saltitante por suas portas. Por suas janelas pode-se observar a beleza oculta aos habitantes das planícies. Em suas águas tépidas o corpo tem suas forças renovadas, a mente se revigora e a dor do exílio que lhe pungia a carne e tornava o espírito pusilânime é sobrevestida de refrigério. Canções alegres e festivas podem ser ouvidas dentro dos termos de nossa habitação. Os habitantes dos trópicos não podem ouvir essas canções, pois o lugar onde moram lhes roubou a sensibilidade dos ouvidos.
Quando os portais do desejoso lar se abrem, pode-se enfim pisar na terra das extremidades. Terra desejada, terra bela, terra que respeita a humanidade de cada um. Terra que não massifica seu povo! Sejam banidos dela todos os arautos do equilíbrio e da igualdade.
Meus olhos aprenderam a discernir entre os habitantes dos extremos e os habitantes do equilíbrio. E que ninguém jamais diga que as aparências enganam! As aparências não enganam. O que muitas vezes ocorre é que escolhemos não enxergar o óbvio, escolhemos ignorar o que está nítido aos olhos.

Kelly Abrantes

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