
Minhas mãos de mal da caneta
A caneta de mal do papel
O papel deixado num canto
Entre nós dois um intransponível véu
Que não me deixa ver teus olhos
Que me priva do teu mirar
Que me impede de tocar tua pele
Que me afasta do teu respirar
Que outrora era rente ao meu
Agora todo ar desapareceu
Ando sem chegar
Pois para aonde ir não tenho
Se de ti não posso me aproximar
Tanto faz qualquer lugar
Eis a anatomia de minh'alma
É composta de ²/4 de SAUDADE
Os outros ²/4 de SOLIDÃO
Que farei com papel e caneta
Se tudo que há em mim
É um vazio no coração?
O vento sopra suave
Nos meus ouvidos
Ele vem sussurrar
Um segredo oculto à minha mente
E só agora ele quis desvelar
Disse-me que através dos meus versos
Poderei outra vez ver-te
Poderei te reencontrar
Saber mais de ti
Contigo de alguma forma estar
Minhas mãos em paz com a caneta
A caneta de bem com o papel
Nele meus versos riscados tão rápido
Como uma forma de prece aos Céus
Então comecei a ver-te aos poucos
Como num quebra cabeças
Tua imagem comecei montar
Ver outra vez teus olhos
Que me arrebatam os sentidos
Me fazendo delirar
E nesta tua ausência
Meus versos em segredo disseram
Para um pouco mais lhe esperar
E aprender a ver-te em outros lugares
Onde estás
Espalhado por aí
Para com amor me cercar
O vento sussurrou-me que estarias
Na cor radiante daquela flor simples e sozinha
Que em sua beleza cativante
Enfeita um lugar qualquer onde nasceu
Onde a maioria nem percebeu
Que seu sorriso seria a nota mais suave
Daquela canção já há muito esquecida
Que aquele vento da madrugada
Inesperado
Traria de repente um abraço teu
Que as cantigas dos pássaros no meu jardim
Seriam recados de amor
Que mandarias para mim

Que o bater das asas de uma borboleta
Seriam tuas mãos me aplaudindo por aprender
Que não obstante haja trevas
O dia sempre haverá de amanhecer
E que o amanhecer seria um quadro
Presente teu
Para eu pendurar na minha parede
E recordar-te
E descobrir por amenidades
Como enfim reencontrar-te
Kelly Abrantes
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