Lástima! Caiu o grande cedro do Líbano, grande é a minha desolação.

Oh meu cedro, tu eras forte e inabalável, à tua sombra eu descansava, no balanço dos teus ramos respirava ar puro, o teu vigor me transmitia vida, e mesmo diante das afrontas que me sobrevinham eu me sentia forte; pois quando olhava para ti a tua grandeza enchia os meus olhos e me fazia sentir forte, porque a tua grandeza era a minha, a tua fortaleza me pertencia e juntos éramos inabaláveis. Mesmo quando eu chorava, dentro de mim meu coração não esmorecia, pois a seiva que te alimentava e te fazia ser o que eras, também corria no meu sangue - isso era o meu alento.
A tua magnitude fazia com que minhas pequenas pupilas se tornassem grandes, e com elas contemplava a tua supremacia invejável e via que ela também me pertencia. Por isso havia no meu interior um riso ímpar, que contagiava cada parte do meu ser; era como se tivesse colocado entre dois espelhos a alegria - ela parecia nunca acabar.
Mas agora olho para ti e sinto uma espada traspassar minha alma; grande é a minha dor. Eis que me sobrevêm uma reminiscência, que de repente toma conta de todo meu ser e passo a me lembrar como tudo aconteceu... Em uma tarde começou a soprar um vento estranho, parecia ameaçador, mas, tendo a tua grandeza nos meus olhos, consegui ver apenas um ventinho. Apesar de seres mui grande, oh meu cedro, eu tinha nas minhas mãos a tua vida, e para a minha tristeza aquele vento vespertino, aparentemente inofensivo se tornou em um grande furacão que com ímpeto me derrubou. Quando me dei conta do que estava acontecendo, percebi quão grave e lastimável era a situação - via a tua vida escorrendo por entre os meus dedos, mas já era tarde demais. Eu me levantei, mas tu estavas caído...
O teu ilustre e grande tronco foi deslascado e tombado por aquele maldito vento que me enganou - na verdade, acho que também fui enganada por ti, por se apresentar a mim tão opulente e por me fazer acreditar que nunca cairias. Mas já não me importo mais em saber quem de fato é culpado. Só sei que contigo eu também caí, a tua queda foi a minha queda, pois éramos um; eu te dava vida e tu me davas força.
Imensa é a minha dor nesse momento, pois tu eras o meu orgulho. E agora o que enche os meus olhos não é mais tua grandeza, e sim um quadro caótico: Estou de joelho aos teus pés contemplando a cada dia os teus galhos murcharem, os teus ramos secarem e tua vida se ir...
E com ela também vai a minha; já não tenho mais nada (apesar de ter quase tudo). A única coisa que me resta são lágrimas, e em prantos e lamentos de dor eu as derramo em um pedaço do teu tronco que ainda está arraigado a terra. Faço isso na esperança de que brotes e se torne novamente aquela grande árvore.
Ah, como anseio poder um dia (e que esse dia não esteja demasiado longe) abraçar o teu tronco e sentir o frescor da tua sombra, que agora me faz tanta falta por causa do sol quente que faz minha pele arder. Depois que caístes, me olhei no espelho e tudo que contemplei foi o que realmente sou sem ti - uma ínfima partícula. Cresças logo, antes que eu morra, pois sofro a tua ausência. Quero dizer-te: “Tu és o meu cedro, meu único amigo, meu maior presente!”. Levanta-te para que quando vieres novamente aquele vento, tu sejas para mim uma muralha...
Kelly Abrantes
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