
Errante, sem habitação ou destino. Chamam-no Errante. E errante vai rumo a qualquer lugar. Errante, se sente enfadado de tanto caminhar. Errante.
Sem direção vai o Errante e se senta debaixo de uma quaresmeira. Tem ele o corpo castigado pelas mazelas dos caminhos onde passou. O coração no peito lhe aperta com uma dor tamanha, que jamais alguém poderá descrevê-la, apenas mencioná-la. E a dor que lhe punge o peito lhe abre uma ferida cujo jorrar de sangue lhe submerge a alma. Mas sábio, ele transforma este sangue em lágrimas que por seus olhos saem lavando-lhe a visão de todos os horrores que um dia viu.
Ali, debaixo da quaresmeira ele sente sua dor, ele chora, ele pensa e dorme. Ali ele acorda e vê diante de si algumas criancinhas com sorrisos estampados na face a observá-lo. E contagiado pelo encanto delas, ele também sorri. Elas passam então a inquiri-lo sobre o conteúdo de seu alforje. Ele as responde dizendo que possuía apenas uma folha onde costumava desenhar um mapa com os caminhos que trilhara e escrever algumas poucas coisas que pensava ser interessante.
Sentando-se ao redor dele, as criancinhas lhe pediram para contá-las sobre as coisas que ele pensava ser interessantes. Ao que ele disse: “Oh meus pequenos infantes, das coisas que escrevi, não cogitais vós agora, mas o tempo chegará em que lhes será interessante sabê-las. Por isto lhas escreverei para vós, e vos pedirei que as guardem até o tempo em que elas se abram para os vossos olhos”. E assim ele fez; escreveu, entregou-las às crianças e partiu. Tempos depois aquelas crianças – agora já crescidas, passaram a ler as palavras deixadas pelo Errante.
“Se vos encantar a alma o som do sorriso de uma criança mais que a todos os sons, mais até mesmo que o som da mais bem conceituada orquestra a tocar as mais famosas sinfonias, amai mais o som deste sorriso, sem medo ou culpa. Amai-o. E se vos taxarem tolos entendais que tais pessoas que assim dizem são por demais pequenas para entender a vossa grandeza.
Se vossos pés desejarem ir rumo a um lugar jamais trilhado, ide, sem medo ou culpa. Muitos dos caminhos que hoje existem nasceram no desejo de pessoas que ousaram.
Se desejardes escrever de forma diferente das já conhecidas, se desejardes mesclar linguagens e estilos, gírias novas com palavras antigas, façai-lo, sem medo ou culpa. São as novas combinações e misturas as condutoras de vida a uma língua. Esta é a possibilidade da dinâmica do idioma que se abre para vós.
Se vos aborrecerdes de sempre ler os pensamentos de outrem, pensai, sem medo ou culpa. Os pensamentos, contos e histórias que hoje vossos olhos lêem, muitos deles só nasceram porque alguém se cansou dos anteriores e quis ir além. Não entendeu o “ponto final” como final de tudo, mas como uma pausa para que se formulassem novas coisas. Respeitai sempre o que já existe, mas prossigais.
Não desejais jamais serem outrem. Seja como for, sejais vós mesmos, sem medo ou culpa. Sejais plenamente vós, mesmo que sejam contraditórios a si mesmos. As pessoas que hoje são ditas grandes só se tornaram assim porque um dia cansaram de viver à sombra de outrem, sendo como cópia e plágio seus. Elas se afastaram do centro, mas não se tornaram marginais, pois ousaram e a si mesmas criaram. Parafrasearam apenas o desejo de serem sublimes.
Não tenhais jamais vergonha de sonhar e dizer vossos sonhos. Sonhai sem medo ou culpa. Sonhai-os plenamente, pois são os sonhos que dão vida ao mundo. Somente se prossegue quando se sonha.
Não vos preocupais se, tendo feito todas estas coisas vos deparardes com alguém como vós, dizendo as mesmas coisas, tendo os mesmos pensamentos, trilhando e ousando como vós. Pelo contrário, alegrai-vos. Sim, alegrai-vos sem medo ou culpa. A realidade é que ambos compartilham da mesma alma e bebem da mesma fonte.
Não vos esqueçais jamais de mim. Em sã consciência ou em delírios, recordai-vos sempre da minha pessoa, sem medo ou culpa. Talvez agora enquanto lês o que vos escrevi há tempos, eu já não mais exista sobre a terra dos viventes. Mas não importa meu corpo, pois sou a Possibilidade que se abre ante vossos olhos. Sou a possibilidade de libertação das vozes que habitam os abismos, das vozes grávidas de mundos. Não esqueçais de mim!
Mais coisas vos queria ainda falar, mas cansado estou e não posso permanecer aqui. Não vos dei um mapa com caminhos ou com estas palavras vos quis ensinar a Sabedoria. Apenas vos escrevi pensamentos de minha alma, que lhes poderão ser de grande valia se um dia quiserdes deixar a mediocridade – ainda que se tornem errantes.
Se vossos pés desejarem ir rumo a um lugar jamais trilhado, ide, sem medo ou culpa. Muitos dos caminhos que hoje existem nasceram no desejo de pessoas que ousaram.
Se desejardes escrever de forma diferente das já conhecidas, se desejardes mesclar linguagens e estilos, gírias novas com palavras antigas, façai-lo, sem medo ou culpa. São as novas combinações e misturas as condutoras de vida a uma língua. Esta é a possibilidade da dinâmica do idioma que se abre para vós.
Se vos aborrecerdes de sempre ler os pensamentos de outrem, pensai, sem medo ou culpa. Os pensamentos, contos e histórias que hoje vossos olhos lêem, muitos deles só nasceram porque alguém se cansou dos anteriores e quis ir além. Não entendeu o “ponto final” como final de tudo, mas como uma pausa para que se formulassem novas coisas. Respeitai sempre o que já existe, mas prossigais.
Não desejais jamais serem outrem. Seja como for, sejais vós mesmos, sem medo ou culpa. Sejais plenamente vós, mesmo que sejam contraditórios a si mesmos. As pessoas que hoje são ditas grandes só se tornaram assim porque um dia cansaram de viver à sombra de outrem, sendo como cópia e plágio seus. Elas se afastaram do centro, mas não se tornaram marginais, pois ousaram e a si mesmas criaram. Parafrasearam apenas o desejo de serem sublimes.
Não tenhais jamais vergonha de sonhar e dizer vossos sonhos. Sonhai sem medo ou culpa. Sonhai-os plenamente, pois são os sonhos que dão vida ao mundo. Somente se prossegue quando se sonha.
Não vos preocupais se, tendo feito todas estas coisas vos deparardes com alguém como vós, dizendo as mesmas coisas, tendo os mesmos pensamentos, trilhando e ousando como vós. Pelo contrário, alegrai-vos. Sim, alegrai-vos sem medo ou culpa. A realidade é que ambos compartilham da mesma alma e bebem da mesma fonte.
Não vos esqueçais jamais de mim. Em sã consciência ou em delírios, recordai-vos sempre da minha pessoa, sem medo ou culpa. Talvez agora enquanto lês o que vos escrevi há tempos, eu já não mais exista sobre a terra dos viventes. Mas não importa meu corpo, pois sou a Possibilidade que se abre ante vossos olhos. Sou a possibilidade de libertação das vozes que habitam os abismos, das vozes grávidas de mundos. Não esqueçais de mim!
Mais coisas vos queria ainda falar, mas cansado estou e não posso permanecer aqui. Não vos dei um mapa com caminhos ou com estas palavras vos quis ensinar a Sabedoria. Apenas vos escrevi pensamentos de minha alma, que lhes poderão ser de grande valia se um dia quiserdes deixar a mediocridade – ainda que se tornem errantes.
Leiais sempre estas palavras, façam elas sentido ou não. Leiam-nas sem medo ou culpa, sem preguiça. Leiam-nas sendo coerentes ou não. Leiam-nas apenas pela sonoridade que cada palavra aqui escrita possui. Por amor ou por ódio, por indiferença ou por saudade, leiam-nas.”
Kelly Abrantes

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